
Acordou às três e meia da madrugada, sem mais nem menos.
sentia seu corpo estranhamente disposto. seus olhos estariam
aptos para a partir daquele horário observar a lenta e incruenta
mudança de cores nos céus da concreta cidade.
Mas concreto não era o seu estado. Pensava nas palavras dorminhoco,
camisola, bocejo, água, leite quente, braços protegidos, gozo, cansaço,
pés - mas nada adiantava, nada resolvia, nada, nada.
Queria um cigarro, mas não tinha; e naquele horário ninguém aceitaria
cartão, bem ninguém aceita cartão ao vender cigarros. Sim, ele nunca andava
com dinheiro, somente cartão. Pensava nos assaltos. Com o cartão - imaginava -
sentiria o prazer de quebrá-lo nas fuças do assaltante sem lhe dar um tostão.
Independente do que ocorreria depois.
Então foi para frente do espelho no banheiro. Turva visão, esfumaçada presença.
E começou a arrancar os poucos cabelos brancos que precocemente teimavam em
aparecer nos seus fartos cachos.
- E se eu tivesse enxaqueca?
- hum,mmmm um dia quero interpretar um personagem bufão, sim, comédia dell'arte
e coisas do gênero.
- Cadê o isqueiro? af, não tenho cigarros ( )
- Um piano de cauda...talvez eu nunca venha a tê-lo, mas é como se tivesse, assim se
aprende a viver com o que tanto falta.
Personagem,
insufla o ar nas tuas vias. esquece teu olhar duro e vazio, tua voz oca e descompassada.
Feche os olhos e sinta. de olhos abertos é impossível ver o que mais vale a pena ser visto.
Ofendido ou elogiado, fuja.
Para qualquer lugar.
Pouco aquém do além.