quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Insônia


Acordou às três e meia da madrugada, sem mais nem menos.

sentia seu corpo estranhamente disposto. seus olhos estariam

aptos para a partir daquele horário observar a lenta e incruenta

mudança de cores nos céus da concreta cidade.

Mas concreto não era o seu estado. Pensava nas palavras dorminhoco,

camisola, bocejo, água, leite quente, braços protegidos, gozo, cansaço,

pés - mas nada adiantava, nada resolvia, nada, nada.

Queria um cigarro, mas não tinha; e naquele horário ninguém aceitaria

cartão, bem ninguém aceita cartão ao vender cigarros. Sim, ele nunca andava

com dinheiro, somente cartão. Pensava nos assaltos. Com o cartão - imaginava -

sentiria o prazer de quebrá-lo nas fuças do assaltante sem lhe dar um tostão.

Independente do que ocorreria depois.

Então foi para frente do espelho no banheiro. Turva visão, esfumaçada presença.

E começou a arrancar os poucos cabelos brancos que precocemente teimavam em

aparecer nos seus fartos cachos.


- E se eu tivesse enxaqueca?


- hum,mmmm um dia quero interpretar um personagem bufão, sim, comédia dell'arte

e coisas do gênero.


- Cadê o isqueiro? af, não tenho cigarros ( )


- Um piano de cauda...talvez eu nunca venha a tê-lo, mas é como se tivesse, assim se

aprende a viver com o que tanto falta.


Personagem,


insufla o ar nas tuas vias. esquece teu olhar duro e vazio, tua voz oca e descompassada.

Feche os olhos e sinta. de olhos abertos é impossível ver o que mais vale a pena ser visto.

Ofendido ou elogiado, fuja.

Para qualquer lugar.

Pouco aquém do além.