Ele era o senhor Qualquer-Um.
Estava em casa com seus livros,seu roupão e o
lençol desalinhado na cama.
A escuridão apagava-o como um giz no quadro-negro.
Lembrou do jantar e da maneira como devorava o alimento,
mesmo sufocado pela náusea.
Colocou-se de pé,num pulo,todo transtornado,para certificar-se
do peso do tronco sobre as pernas.Tinha então,ou julgava ter (o que é o mesmo)
a sensação de que realmente não existia.Sua face caía para lá e para cá.
Simples assim:acendeu o abajour e olhou-se no espelho.
- O que você tem nos olhos?
- Tristeza.
O espelho estava ali especialmente para perseguí-lo e atormentá-lo.
Na escuridão almiscarada do quarto a figura à sua frente abria-se
como o bocejo de um esfomeado.
E riu azedo.
Azedo como um velho gato mofado.E vociferava cobras e lagartos daquele
velho animal.
Sentia-se unido ao reflexo por alguma circunstância avassaladora - como uma
guerra ou uma praga.
Ofereceu um pedaço de bolo de chocolate para a figura do espelho.
Sua voz descia oca pela laringe como se tivesse sido tragada.
Tinha um coração de estopa.
Ao sair, seu estático espectro ficou arreado no espelho como um cavalo velho.
Mas está em ordem,
tudo está em ordem.