sábado, 8 de dezembro de 2007

Et vous?


Meus amigos estão cansados das minhas dores homeopáticas.
Da vidinha pardacenta que ultimamente eu escolhi viver.
Olhos semicerrados, ombros arqueados, mãos em alerta
para barrar a aproximação febril e desventurada de até
mesmo uma folha bruxuleante despencada de um Ipê-Amarelo.
Uma nota aguda e irritante comprime a garganta.
Mas cala-se densa e cancerígena quando o ar faceiro brinca
de sopro de vida ao entrar nos pulmões enegrecidos de alcatrão.

Meus amigos estão preocupados com as putas mal pagas,
com o peso das asas dos anjos, com o rosto tão estático e não corrompido
da Pietá, com os bueiros arrotando servidão.
No mapa da ideologia, eles ficam parados e silenciosos como se estivessem
posando para um pintor.
Eles não sabem o que fazem e mesmo assim tentam criar regras para o
parque humano.

Sejam bem-vindos ao deserto do real.
Sintam-se sufocados e esmagados, revoltados,sujos e escarrados.

EU VOS BATIZO EM NOME DA MORTE,DA HUMILHAÇÃO E DO CRIME.

E despossuídos de hipocrisia, salve-se quem puder.

EU?!
Sou um verbete sarcástico.
Colecionador de mistérios solucionáveis,projetos encadernados,olhares desviados,
de fome, de aluguel,de vícios e dores, de unhas bem cortadas e sapos amarelos.
de letrinhas pintadas de azul e borradas com o amarelo que sempre falta no estojo.

Remo meu barco no pântano em um reino de um príncipe cujo desejo perpétuo é saltar dos contos de fadas e desfrutar amores líquidos, ou apenas dirigir um táxi.

No balcão da clínica da fantasia,peço um café com conhaque.
A recepcionista não fala minha língua.
Às favas com todas as cadelas.

no cálice das palavras bebo imaginação e gozo.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

ensaios

Queria dar-lhe um beijo,
que fosse ao menos nos cabelos.
Ah, aqueles lábios agridoces
pelo elemento nicotinado.

Mas quem tem a coragem de virar
as costas para golpes de sorte?

O insano e revolto som do motor
redirecionando a rota
é sem dúvida o agradável gemido do remorso.

Em sua imaginação estão a humilhação e a feiúra.
Frutos da superstição romanesca.

Sujeição.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Dos Segredos


Olhos,lábios sexo,nome
Vestimenta,atitude,silêncio
Na borda,matéria espessa
Eixo,um único eixo.

Deixar-se escolher,
o lado possível do impossível
Espasmos,será senhor
no seu direito sobre a natureza.

O que é imposto nos outros
Eu faço por impulso de vida
Incandescência,abrasamento,palpitar
Contente à espera.

Abriga-te em meus dedilhados
Toma-me como a um livro
estou na biblioteca,em todas elas
Farto,inquieto,resoluto.

A carne e a escrivaninha nos
uniram mais que dois amantes.

O espelho

Ele era o senhor Qualquer-Um.
Estava em casa com seus livros,seu roupão e o
lençol desalinhado na cama.
A escuridão apagava-o como um giz no quadro-negro.
Lembrou do jantar e da maneira como devorava o alimento,
mesmo sufocado pela náusea.
Colocou-se de pé,num pulo,todo transtornado,para certificar-se
do peso do tronco sobre as pernas.Tinha então,ou julgava ter (o que é o mesmo)
a sensação de que realmente não existia.Sua face caía para lá e para cá.

Simples assim:acendeu o abajour e olhou-se no espelho.

- O que você tem nos olhos?
- Tristeza.

O espelho estava ali especialmente para perseguí-lo e atormentá-lo.
Na escuridão almiscarada do quarto a figura à sua frente abria-se
como o bocejo de um esfomeado.
E riu azedo.
Azedo como um velho gato mofado.E vociferava cobras e lagartos daquele
velho animal.
Sentia-se unido ao reflexo por alguma circunstância avassaladora - como uma
guerra ou uma praga.
Ofereceu um pedaço de bolo de chocolate para a figura do espelho.
Sua voz descia oca pela laringe como se tivesse sido tragada.
Tinha um coração de estopa.

Ao sair, seu estático espectro ficou arreado no espelho como um cavalo velho.

Mas está em ordem,
tudo está em ordem.

Mi menor


Eu vi mamãe Oxum na cachoeira,
sentada na beira do rio.

Colhendo lírio, lírio ê
Colhendo lírio, lírio a

colhendo lírio pra enfeitar o seu congá.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Comment?

Le réel possède,

un avantage considerable

sur la Fiction,

c'est d'être unique.

Anel dos Nibelungos

Medo é o fantasma da indecisão,
Compactuamos com a vitória de Apolo.
Eu vim de lá, de onde o medo não tem nome.

Qual é mesmo o seu nome?

Anel dos Nibelungos

Poesia é subterfúgio
o asfalto quente não me corrói
eu me encontro no urbanismo
de teus tecidos e veias.

Da fonte

Não é dia
nem é noite.

é um sinistro e interminável intervalo
que se enfiara no meio dos dois.

Quando eu abandono a caminhada
as explicações não sobrevivem a
qualquer experiência científica.

E tenho sede.

Bebi da água do rio com a concha da minha mão.

Gotejando injúrias e vertendo rancores.

Ah, as pessoas?

São rabiscos aleatórios.

E seus sonhos?

São restos de cigarro

mal pisados pelo calcanhar direito.