Escarro minhas tristezas e
contamino minhas alegrias.
Não sou um lugar,
sou apenas uma condição irrevogável.
Mergulhado numa calma marmórea,
sou desfeito e evitado.
Trago a vida e insisto em soltar a fumaça
pelas narinas,
mucosas ardidas e irritadas
pelo efêmero prazer.
Nublada visão.
Sou de loucos, de louça,
sou cenário e éter.
Perigoso e triste.
Estrela doente que despenca.
Por um triz sou uma mentira.
Ah, Sou Divina Comédia,
Sou arranha-céu.
Lamento, tormento, escuridão.
Nas paredes da sua vida
pinto o meu rosto.
Entro no seu quarto e choro
para sempre.
Meu corpo é teu estribilho.
Pisoteio o sétimo selo apocalíptico.
Maldito, maléfico, mentiroso.
Preciso jogar fora o bebê e ficar
com a água suja do banho.
sexta-feira, 14 de dezembro de 2007
quinta-feira, 13 de dezembro de 2007
Parce qu'il m'adorait

Seu corpo tremia como se quisesse
ou pudesse expulsar seus orgãos.
Agarrou-me lutando e acariciando
mole e férreo ao mesmo tempo.
Suportando e comentendo o
assassinato mais prolongado,
menor e mais perpétuo.
Sorriso fantasticamente doce,
desanimado e comovedor.
Eu me entregaria ao amor por
toda a noite.
Teus pêlos perdidos em meus lençóis.
Coloco-os em minha língua e os engulo.
Adoro o perfume da tua virilha
e a comungo.
Terrível e impronunciável.
Depósito sagrado. Imoral.
Indecente.
Até inconfessável.
Desespero dos que anceiam calma.
Dedicatória.

Hoje
por incrível que pareça, é um dia especial.
nunca gostei de aclamações natalícias.
Meus aniversários, salvo raras ocasiões,
tornaram-se motivo de festividade.
Festejar o quê? a proximidade do fim?
Que bobagem.
Estou para além do aquem.
Estar com alguém que se ama, compartilhar
com os amigos, menosprezar os inimigos,
rir dos desajeitados e dos incautos.
Sofrer é o melhor remédio - por opção, é claro -
mas a cura é como um longo caminho.
Um passo após o outro.
Ergo um pé, abaixo o outro, ergo, abaixo,
e quando menos se espera os saltos chegam,
a energia nas pernas e a dança começa.
Primeiro envergonhada com sorriso acanhado.
Depois descompromissada e no ouvido algumas
terças sobrepostas, violões, percussão, teclados e
um irreverente texto em inglês, que fale de amor,
que fale dos encontros estrategicamente não planejados.
Da minha insistente briga, comigo mesmo.
Não cobro nada de ninguém, não quero.
Ih, sou sujo com isto.
Então, dedico este dia "aos vermes que primeiro roerem as minhas
duras e frias carnes",
À dolência,
aos personagens,
aos desconhecidos,
aos palhaços,
à Bataille,
às horas erradas,
ao chegar derrepente,
aos meus dedos,
ao merecimento,
.
Feliz aniversário, Thiago.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2007
Dorme,dorme,dorme

Na noite,
as flores de uma praça em Paris
travestem a noite.
estrelas se acotovelando.
Enrolados ao manto da santa
anjos barrocos dormem.
dormem,dormem,dormem.
O bebê faminto acordou chorando
e o boi-da-cara preta está fazendo
a mamadeira.
É noite,
e o jornaleiro entrega os seus jornais
que de manhã já não nos dizem nada.
nada, nada, nada, nada.
Na noite,
o coração partido mancha de pesadelos
o travesseiro.
É noite.
dorme, dorme, dorme.
ELKE MARAVILHA.
Insônia

Acordou às três e meia da madrugada, sem mais nem menos.
sentia seu corpo estranhamente disposto. seus olhos estariam
aptos para a partir daquele horário observar a lenta e incruenta
mudança de cores nos céus da concreta cidade.
Mas concreto não era o seu estado. Pensava nas palavras dorminhoco,
camisola, bocejo, água, leite quente, braços protegidos, gozo, cansaço,
pés - mas nada adiantava, nada resolvia, nada, nada.
Queria um cigarro, mas não tinha; e naquele horário ninguém aceitaria
cartão, bem ninguém aceita cartão ao vender cigarros. Sim, ele nunca andava
com dinheiro, somente cartão. Pensava nos assaltos. Com o cartão - imaginava -
sentiria o prazer de quebrá-lo nas fuças do assaltante sem lhe dar um tostão.
Independente do que ocorreria depois.
Então foi para frente do espelho no banheiro. Turva visão, esfumaçada presença.
E começou a arrancar os poucos cabelos brancos que precocemente teimavam em
aparecer nos seus fartos cachos.
- E se eu tivesse enxaqueca?
- hum,mmmm um dia quero interpretar um personagem bufão, sim, comédia dell'arte
e coisas do gênero.
- Cadê o isqueiro? af, não tenho cigarros ( )
- Um piano de cauda...talvez eu nunca venha a tê-lo, mas é como se tivesse, assim se
aprende a viver com o que tanto falta.
Personagem,
insufla o ar nas tuas vias. esquece teu olhar duro e vazio, tua voz oca e descompassada.
Feche os olhos e sinta. de olhos abertos é impossível ver o que mais vale a pena ser visto.
Ofendido ou elogiado, fuja.
Para qualquer lugar.
Pouco aquém do além.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
Olha,

naquele dia estava disposto a anular-se.
não queria mais ouvir o canto da vizinha lavadeira,
a lamúria das solteiras nem muito menos assistir o
final do campeonato, enfim, cessar de envenenar sua
vida com memórias arrotadas por outras bocas.
Escolheu ser um fora-da-lei para sua bem-aventurança
naquela noite. E colhia as belas e sombrias flores através
de fragmentos.
Vivia em abismos que presidiam seus pequenos hábitos,
sentia-se amado pois sua voz era o sinal sagrado dos monstros.
Parecia impossível, mas seus gestos totalmente involuntários
eram cercados da pesada reflexão e da decisão.
Pensava na escuridão e na umidade transpassando seus ossos.
nas mãos da brutalidade retalhando seu corpo, sentindo o fatídico
prazer da mais íntima companhia e menos cerimoniosa.
Deparou-se com a paisagem que nunca prestara atenção.
e em pouco tempo veio a salvação.
Eram seis ou sete da noite.Porém foi germinado e tornado.
Brincou com o polegar e perguntou sorrindo :
- Ritual?
e numa mistura de carinho, grossura, brincadeira e sensibilidade
defrontaram-se sorrindo - sem falar. seus olhos eram de papel crepom.
conheceu seus silêncios e suas palavras, e o resto como se diz, faz parte
da história universal.
Espalhado.
Eclesiástico do crime, da transgressão e da decadência.
Encharcara de esperma seus manuscritos já encharcados de lágrimas.
toque profético sem remorso ou remissão.
Epopéia perturbada e sacralizada.
Nebulosa de um sonho: os horrores das cores proibidas.
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